Carta do Bartolomeu 04/02/2010 | |
Belo Horizonte, 16 de dezembro
de 2009
Hoje, me vi pensando
como seria viver em um país de leitores literários. Pode ser apenas um sonho, mas
estaríamos em um lugar em que a tolerância seria melhor exercida. Praticar a
tolerância é abrigar, com respeito, as divergências, atitude só viável
quando estamos em liberdade. Desconfio que, com tolerância, conviver com as
diferenças torna-se em encantamento. A escrita literária se configura quando o
escritor rompe com o cotidiano da linguagem e deixa vir à tona toda sua
diferença – e sem preconceitos. São antigas as questões que nos afligem: é o
medo da morte, do abandono, da perda, do desencontro, da solidão, desejo de
amar e ser amado. E, nas pausas estabelecidas entre essas nossas faltas,
carregamos grande vocação para a felicidade. O texto literário não nasce
desacompanhado destes incômodos que suportamos vida afora. Mas temos o desejo
de tratá-los com a elegância que a dignidade da consciência nos confere.
A leitura literária, a
mim me parece, promove em nós um desejo delicado de ver democratizada a razão.
Passamos a escutar e compreender que o singular de cada um – homens e mulheres
– é que determina sua forma de relação. Todo sujeito guarda bem dentro de
si um outro mundo possível. Pela leitura literária esse anseio ganha corpo. É
com esse universo secreto que a palavra literária quer travar a sua conversa. O
texto literário nos chega sempre vestido de novas vestes para inaugurar este
diálogo, e, ainda que sobre truncadas escolhas, também com muitas aberturas
para diversas reflexões. E tudo a literatura realiza, de maneira
intransferível, e segundo a experiência pessoal de cada leitor. Isto se faz
claro quando diante de um texto nos confidenciamos: "ele falou antes de
mim", ou "ele adivinhou o que eu queria dizer".
O texto literário não
ignora a metáfora. Reconhece sua força e possibilidade de acolher as
diferenças. As metáforas tanto velam o que o autor tem a dizer como revelam os
leitores diante de si mesmo. Duas faces tem, pois, a palavra literária e são
elas que permitem ao leitor uma escolha. No texto literário autor e leitor se
somam e uma terceira obra, que jamais será editada, se manifesta. A literatura,
por dar a voz ao leitor, concorre para a sua autonomia. Outorga-lhe o direito
de escolher o seu próprio destino. Por ser assim, a leitura literária cria uma
relação de delicadeza entre homens e mulheres.
Uma sociedade delicada
luta pela igualdade dos direitos, repudia as injustiças, despreza os
privilégios, rejeita a corrupção, confirma a liberdade como um direito que nascemos com ele.
Para tanto, a literatura propõe novos discernimentos, opções mais críticas,
alternativas criativas e confia no nosso poder de reinvenção. Pela leitura
conferimos que a criatividade é inerente a todos nós. Pela leitura literária
nos descobrimos capazes também de sonhar com outras realidades. Daí,
compreender, com lucidez, que a metáfora, tão recorrente nos textos literários,
é também uma figura política.
Quando pensamos em um
Brasil Literário é por reconhecer o poder da literatura e sua função
sensibilizadora e alteradora. Mas é preciso tomar cuidados. Numa
sociedade consumista e sedutora, muitos são leitores para consumo externo. Lêem
para garantir o poder, fazem da leitura um objeto de sedução. É preciso pensar
o Brasil Literário com aquele leitor capaz de abrir-se para que a palavra
literária se torne encarnada e que passe primeiro pelo consumo interno para, só
depois, tornar-se ação.
O Brasil Literário
pode, em princípio, parecer uma utopia, mas por que não buscar realizá-la?
Com meu abraço,
sempre,
Bartolomeu Campos de Queirós Movimento por um Brasil literário
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